Descomplica, Complica. Repita.

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Na minha vida nada nunca foi descomplicado. Perceba: eu falei “descomplicado”. Poderia ter usado a palavra “simples”, teria sido muito mais descomplicado.

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Tenho uma lembrança muito remota de um sofrimento intenso, uma dor que me dilacerava: no parquinho do prédio dos meus primos, eu, aos 8 anos de idade, entre lágrimas, desabafava com meu primo de 3, que ele era o meu único amigo, porque fora excluída da brincadeira do meu irmão e primos mais velhos, à qual eu não era muito bem recebida.

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Me lembro sofrer imensamente por não ser um fenômeno nas aulas de patinação artística e também por não ser a princesa ao pegar na mão do príncipe na apresentação de final de ano do ballet.

Carregava uma mágoa astronômica por não ser a irmãzinha fofa do meu irmão mais velho. Queria desesperadamente sua aprovação, enquanto que o que eu tinha dele eram ríspidos chegas-pra-lá e a “razão para o pranto do dia”, como ele falava.

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Não culpe minha mãe. Lembro, com a mesma clareza, de como ela se esforçava em deixar bem claro os meus limites, exigir responsabilidade e nunca passar a mão na minha cabeça. Tampouco dizia que as pessoas eram más e que eu que estava sofrendo uma injustiça sem fim. Não, minha mãe, virginiana que só ela, sempre teve a sabedoria em me mostrar as coisas como eram, objetivamente, sem mimimi. Aliás, mimimi? Nunca soube o que era isso com ela. Eu bem que tentava, esperneava, uivava aos prantos no chuveiro, ao ter recebido um impiedoso “não” ao meu pedido de ir onde “todo mundo ia”. O que eu aprontei pra ter tido essa súplica negada, não lembro. Mas definitivamente, ela teve seus motivos.

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Talvez meu pai? Ahhh o meu pai… o maior bonachão do pedaço. Sempre boa praça e eu era a filhinha dele. A Thaizinha do Pai.  Me trazia “presentes da saudade” ao voltar de uma viagem de dois dias. Quando chegava em casa, tarde da noite, entrava no meu quarto enquanto eu (fingia que) dormia, se certificava de que não havia nenhuma fresta nas minhas cobertas que permitiriam passar o ar gelado das noites do inverno gaúcho, me dava um beijo na testa e me observava com olhos de uma ternura inesquecível, escorado na porta por alguns segundos. Na dúvida cruel entre a Barbie Ginasta e a Barbie Médica, ele me dava as duas. Não hesitava em fazer a volta para buscar meu roller que eu havia esquecido em casa, quando já estávamos há 20 minutos na estrada para uma viagem de 8 horas. Respondia com toda a paciência do mundo, todas as 15 vezes que eu perguntava se “faltava muito” pra chegarmos.

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Mas ele nunca teve o poder de me mimar, pela breve razão de que minha mãe, a virginiana, sempre teve a lucidez e a prudência de dar o veredito final.

Até que, aos meus 16 anos, tudo mudou. Meu pai já não estava mais à minha porta me observando dormir. Ele estava em outra casa, e havia levado com ele os olhos daquela ternura que nunca vou esquecer.

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Foi muito brusca a mudança na minha vida: entre as aulas de equitação e a assinatura da Net, optava em cancelar as duas. Foi um intensivo de realidade nova muito forte e definitivo. Assim que pude, procurei um estágio e passei a ajudar minha mãe nas contas da casa, que não eram poucas por mais que a gente cortasse a faxineira e tropeçava nas escadas por deixar as luzes apagadas pra economizar. Rimos e choramos muito juntas, abraçadas. Sorrindo, falávamos que aquilo tudo um dia passaria e que olharíamos pra trás orgulhosas de termos conseguido superar.

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Uma tia um dia me chamou de resiliente: “Ah, a Thaís é resiliente” – segundo o Aurélio, resiliência – 1 Ato de retorno de mola; elasticidade. 2 Ato de recuar (arma de fogo); coice. 3 Poder de recuperação. 4 Trabalho necessário para deformar um corpo até seu limite elástico. Ou trazendo à psicologia, segundo a Wikipedia, é “a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, choque, estresse etc., sem entrar em surto psicológico – E ela tinha razão: a “Thaizinha” passou a enfrentar os infortúnios da vida com um sorriso cheio de dentes enormes no rosto.

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Descompliquei. Ah, que anos felizes. Lembro-me de afirmar com muito orgulho que não tinha problemas. E eu não estava mentindo, eu realmente não tinha problemas. Aliás, claro que tinha, mas eu era tão grata a tudo na minha vida que nem os percebia. Eu vivia em estado de graça, amava muito, julgava pouco. Aconteciam, evidentemente, episódios desagradáveis que me colocavam um pouquinho pra baixo. Mas, claro, eu jogava o jogo do contente, lembra, da Pollyana? Sempre achava o lado bom de tudo, e rapidinho recuperava o meu alto-astral, meu sorriso cheio de dentes enormes.

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Alguns anos depois, fui iniciada à minha tão sonhada vida de teatro. Foi quando começou o penoso regime quebra-máscaras. Oi? Sim, máscaras, aquelas que usamos para viver em sociedade (e nem imaginávamos que existem).

Você sabia que o termo “persona” deriva da palavra latina equivalente a “máscara”, e se refere às máscaras usadas pelos atores no teatro grego clássico para dar significado aos papéis que estavam representando? Carl Jung, o fundador da psicologia analítica, defendia que “persona” é a maneira que cada sujeito se mostra ao mundo, é o caráter que assumimos; através dela nos relacionamos com os outros. A persona inclui os papéis sociais, as roupas e o estilo de expressão pessoal. Possui dois aspectos, um positivo e outro negativo: o positivo está associado à possibilidade de adaptação do sujeito ao seu meio social; o aspecto negativo surge quando o Eu se identifica com a persona, fazendo com que a pessoa se distancie e desconheça sua real personalidade, a alma.

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Tendo isso dito e voltando ao regime quebra-máscaras. Tive uma noção do que isso se tratava nas aulas de teatro. Alguns professores usavam técnicas, digamos, pouco ortodoxas, para extrair dos alunos, determinada emoção. Mas foi depois de formada atriz, ao começar a trabalhar com um certo diretor de teatro, que entendi de verdade o que aquilo tudo significava.

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“Caminha, Thaís”. Foi a primeira instrução que ele me passou ao iniciarmos o trabalho de construção da minha personagem. Nada que eu nunca havia feito. Muito caminhei naqueles dois anos na sala da escola de teatro. Então segui sua orgem. Caminhei, tentando controlar os passos para que fossem neutros. Caminhei, caminhei, caminhei. Ele nada dizia, apenas observava. Até que devo ter falado, entre sorrisos, alguma coisa do tipo “tá e aí…?”, e ele me respondeu “não vejo nada”. Say what? Mas o que afinal era pra ele ver? Meus peitos? Ele pediu que eu puxasse levemente a minha saia para cima. Ops! Meio desconfiada, puxei. E segui caminhando, agora, levemente constrangida e desconfortável com a saia que subia mais e mais a cada passo que eu dava. Percebi então que o seu olhar mudou, estava agora, curioso. Segui caminhando, a saia cada vez mais lá em cima, e meu auto-controle cada vez mais lá embaixo. Eu puxava a saia pra baixo, caminhava, ria sem graça, caminhava, enchia os olhos de lágrimas, puxava a saia pra baixo, caminhava, olhava pra ele, suava frio, caminhava. Até que ele virou pra mim e disse “pronto, temos a Dona Thaís”. Hoje entendo que o que ele queria ver, era a minha alma.

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Descobri naquele momento, que aquele sorriso cheio de dentes enormes, era (e é) a minha máscara. É com ele que me protejo, me defendo, interajo na sociedade. Você sabe qual é a sua? Pense, sem vergonha. Não pense que ter máscaras é algo pejorativo, falso, ruim, nada disso. Esta máscara que todos possuímos não nos transforma em personagens individuais, mas sim coletivos. Através da persona, conseguimos corresponder às exigências e opiniões do meio e dos outros indivíduos que nos cercam.

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Tomei consciência da minha máscara. Sorrio muito, mas também me permito chorar, sentir, ressentir, odiar, expor, amar, sofrer, esperar, exagerar, julgar, agradar, xingar, fazer, arrepender, fazer de novo, ser humana, ser verdade, ser alma.

Compliquei de volta. E tem sido bem difícil. Mas agora, é tudo de verdade. É tudo eu, intenso e efêmero.

“Foi assim que enlouqueci. E encontrei liberdade e segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aqueles que nos compreendem nos escravizam de algum modo. Mas não quero ficar orgulhoso demais de minha segurança. Nem na cadeia um ladrão está a salvo de outro ladrão”

Gibran Kalil Gibran

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Fotos: Du R Maciel – Setembro 2010

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10 comentários sobre “Descomplica, Complica. Repita.

  1. Adorei, Thaís! Tbm estou numa fase de auto análise… tentar lembrar as coisas do passado que minha mente teima em omitir e descobrir quais as minhas máscaras.
    Lindas fotos!!

    Bjs

    • Oi Gi, que bom que você gostou, muito obrigada!
      Espero que você extraia o máximo desse seu momento, é super pessoal, delicado, doloroso, né? Mas força aí, que quando descobrimos algumas coisas sobre nós, facilita nossas relações interpessoais e tomamos coragem pra agir, em todos os âmbitos da nossa vida.
      Um beijo enorme!

  2. As fotos lindas são só a máscara da pessoa linda que és!
    Fico tão feliz de ver a mulher que te tornastes, sensível, querida e acima de tudo autêntica!
    Um beijo bem grande amiga! Sou sua fã!

    • Amiga linda ❤
      É muito reconfortante saber que cultivamos uma amizade muito verdadeira, superamos todos nossos ups and downs, mudamos e seguimos amigas de verdade.
      Obrigada, por de uma forma ou de outra, se fazer sempre presente.
      Sabes que a recíproca é muito verdadeira, morro de orgulho de quem vc é ❤
      Love.

  3. Thais! Thais!
    Linda, intensa, e autêntica.
    Saudades de ti.
    Feliz por ver a sua evolução como profissional, como pessoa, e com seus sentimentos.
    Você vai longe, garota!
    Bjão no ❤

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